A Aposta

Ninguém viu o Estranho chegar.

Numa manhã de outono, enquanto a névoa se desenrolava pelas colinas, ele simplesmente estava ali – sentado na beira ressecada da velha fonte, rabiscando num livro grosso e maltratado. Suas botas estavam gastas, o casaco escuro e simples. Ele não implorava nem negociava. Apenas observava, escutava, e escrevia.

A fonte não jorrava há anos. Um anel de musgo circundava sua base como uma coroa desbotada, e as crianças não tinham permissão para subir – embora algumas subissem mesmo assim. Mas agora ninguém tocava ali. Não com o Estranho presente.

No início, os aldeões mantiveram distância. Mas o tempo amoleceu a desconfiança em curiosidade. Alguns se aproximaram. O encontraram polido, ainda que não exatamente amigável. Quando perguntado quem ele era, respondeu:

– Aquele que vê o silêncio.

Quando perguntado o que escrevia, disse:

– Os nomes daqueles que estão prontos.

Prontos para o quê, ele não diria.

Ainda assim, as pessoas vieram. Contaram-lhe seus arrependimentos, seus pequenos sonhos. Ele nunca interrompeu. Apenas uma vez ofereceu algo não solicitado.

Essa foi Lira.

Ela chegou perto da meia-noite, coberta por um xale fino de mais para o frio. Suas mãos tremiam, mas não por causa do vento.

Ela tinha perdido muito. O pai, para uma febre que o levou em três dias. O irmão, usado numa guerra em que ninguém acreditava, voltou em uma caixa selada com cera. A mãe os seguiu até a Outra Margem pouco depois.

Lira não chorou quando falou. A voz dela soava plana, baixa, como quem enterrara demais e esquecera onde.

– Quero poder – disse.

O Estranho ergueu o olhar, mas não falou.

– Não por vingança – ela acrescentou. – Nem para ganhar algum benefício mundano. Apenas… para que nunca mais me sinta impotente.

Ele fechou o livro.

– Isso é algo sagrado de desejar – disse. – Mas o sagrado nunca vem barato.

– Eu não tenho mais nada para pagar.

Ele a estudou por um momento. Então, gentilmente, tirou do casaco um pequeno objeto quadrado envolto em linho desbotado.

– Então tome isso – disse.

Ela franziu o cenho. – Não entendo.

Ele desembrulhou. Um espelho, não maior do que a palma da mão. A moldura era prata escurecida, gravada com runas quase apagadas. O vidro reluzia faintemente, como se lembrasse da luz mesmo quando nenhuma havia.

– Olhe – disse.

Lira pegou o espelho e se demorou no olhar. O que viu não era seu rosto, não exatamente. Era ela-mas não como era.

No espelho, seu rosto mudou.

Em uma imagem, ela estava ereta e bela-mas de olhos frios, armada de charme e elegância, rodeada por pessoas que a obedeciam, mas não a amavam. Poder sem intimidade. Prestígio sem paz.

Noutra, estava envelhecida e esfarrapada, olhos ocos, murmurando maldições para fantasmas. Ainda amarga. Ainda sozinha. Sua força se calcificara em suspeita; sua dor se solidificara num escudo que ninguém ousava romper.

Em uma terceira, viu algo tão luminoso que a fez fechar os olhos: um eu formado pela tristeza transmutada em graça, olhos como brasas em inverno. Um fogo que aquecia, mas não consumia. Uma curadora. Uma guia. Uma mãe para ninguém-e para todos.

Outras imagens tremulavam nas bordas do vidro. Embaçadas, não escolhidas, à espera.

Ela baixou o espelho.

– Aquele – sussurrou. – É quem quero ser.

O Estranho assentiu.

– Então você precisa fazer uma aposta.

– Com quem?

– Não comigo. Com o espelho.

– Quanto custa?

– Tudo o que você ainda se apega. Cada história que começa com “não consigo”. Cada afirmação “eu sou isto ou aquilo” que não é verdadeira. Cada medo que te mantém menor do que a forma que sua alma deseja tomar. Você terá de perder coisas novamente-segurança, certeza, seu nome em alguns círculos. Mas aquilo que você ganhará…

Ele fez uma pausa. – Aquilo nunca é algo que eu possa prometer.

Lira ficou em silêncio. O vento noturno agitava a barra do xale.

-Se eu falhar?

– Você vai – disse ele. – Mas apenas às vezes. E apenas no início. O que importa é que você continue andando.

Ela olhou para o espelho novamente. Sua superfície agora estava estática, mostrando apenas seu rosto cansado, mas mais suave de alguma forma.

Ela o envolveu no linho e o acomodou junto ao peito.

Quando ergueu os olhos, o Estranho havia partido. A fonte, seca há décadas, agora mantinha um espelho raso de água clara.

Lira voltou para sua casa. Não contou nada do que tinha ocorrido.

Mas, no dia seguinte, visitou a viúva que não saía de casa. No dia seguinte, ficou entre dois homens discutindo na praça e disse uma coisa quieta que os fez silenciar. Começou a cuidar de túmulos que ninguém mais limpara. E quando perguntada por que, apenas disse:

– Porque alguém deve.

Todas as noites, olhava no espelho. Algumas noites ele era gentil. Outras, mostrava coisas que ela não queria ver. Mas ela nunca desviou o olhar. Pelo contrário, as acolheu.

E quando viajantes chegavam e perguntavam se havia uma mulher sábia na aldeia, indicavam a moça com fogo nos ossos e o espelho no bolso-alguém que, há muito, fizera uma aposta que custou tudo.